Diário da Mongólia • Travel

31 de Dezembro de 2019

O FIM DE UMA DÉCADA

Por: Milena Mendes

 

Com o final de 2019 aqui, chegamos também ao fim de mais uma década. E quanta coisa aconteceu! Não falo de feitos como o primeiro iPad em 2010, ou o casamento real entre Príncipe William e Kate Middleton que parou o mundo, no ano seguinte, nem do fenômeno do Youtube em 2012 chamado Gangnam Style (me desculpa se você começou a cantar mentalmente agora!), nem do fim da era Barack Obama, em 2017, tendo se consagrado o primeiro presidente negro a tomar posse na Casa Branca. 

 

Estou falando de eventos próximos a você: seu novo emprego, aquela viagem que sempre sonhou fazer e conseguiu, a família aumentando em número, o relacionamento que não deu certo e terminou, simplesmente para que um novo e excepcional pudesse começar e te fazer feliz como você sempre quis. Falo daquela cirurgia inesperada, da perda repentina de um amigo ou parente, das amizades perdidas, mas também das novas conquistadas, do casamento realizado, do carro trocado, da casa comprada. Me entende, agora?

 

Em nenhum momento da minha vida eu imaginei terminar a década na Mongólia. Esse diário chega ao capítulo número 21. E esse número é irrisório se comparado ao tanto de episódios que a série da vida trouxe. A temporada “Mongólia” já dura três anos. Tanta produção envolvida, tantos atores e atrizes que chegaram, alguns que ficaram, outros passaram, e ajudaram a construir essa história. Tantos scripts re-escritos, alguns nem por mim, mas por Deus. 

 

Em 2010, eu começava meu curso universitário de Jornalismo na minha cidade natal, Presidente Prudente, no oeste de São Paulo. Chegava disposta a mudar o mundo, contar histórias de uma forma diferente. Boba, eu. Imatura, talvez. Nem sabia que, dois anos depois, trancaria o curso para me aventurar nos Estados Unidos.

 

Muitos leitores do Diário da Mongólia não me acompanham há tantos anos. Não sabem do programa de intercâmbio, do voluntariado em televisão americana, do noivado frustrado. Os 25 meses de EUA renderiam capítulos e mais capítulos aqui, mas preciso seguir pelos anos. Voltei para casa em 2014, desorientada dos planos que eu tinha e foram desfeitos.

 

Em 2015 eu retomei meus estudos. A paixão pela comunicação era a única coisa certa que eu tinha em mente, além da vontade de voltar à América do Norte assim que terminasse a graduação. Mas aí veio 2016 e vieram as Olimpíadas do Rio, onde trabalhei com a delegação Afegã. Conheci e falei com alguns dos meus atletas favoritos, também conheci outros jornalistas por quem eu sempre tive fascínio acompanhando pela TV, e teve convite para trabalhar numa das maiores redes esportivas do país.

 

Mas, voltando alguns meses antes dos Jogos, em abril, tinha acontecido o primeiro contato com um pessoal brasileiro que morava aqui em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, me convidando para vir trabalhar aqui. Nada do que me falavam tinha, sequer uma vez, passado pela minha mente e se desenvolvido em vontade. Até que, três meses depois, na Vila Olímpica no Rio de Janeiro, o coração disparou ao passar por atletas vestidos com uniformes da Mongólia. Aquela conexão visão-sentimento foi tão rápida quanto a mensagem que me enviava: minha vida continuaria do outro lado do mundo.

 

E ela continuou, começando em janeiro de 2017, com temperaturas em torno de -40 graus celsius, neve para todo canto, e um vento que fazia as lágrimas dos olhos congelarem. Para a minha sorte, os invernos seguintes foram muito menos sofridos que o primeiro. Trabalhei com crianças de classe baixa e média por um longo período, sendo desafiada a mudar minha ética e meus jeitos muitas vezes; conheci o Deserto de Gobi, um dos mais famosos do mundo, andei à camelo, tomei leite de égua, comi carne de carneiro, passei por paisagens pitorescas; estreei na TV Mongol, e conheci meu marido. Chorei e sorri, quis partir e quis ficar, quis desistir mas quis terminar a missão. O ano de 2017 foi um mix incrível. 

 

Veio 2018, meio calado, sem muitas emoções durante os meses, guardando todas elas para o final do ano. Dezembro veio cheio de surpresas: viagem surpresa da minha escola para o Brasil, que rendeu em casamento diante da minha família e amigos, revendo queridos e curtindo o calor e o sal da praia. 

 

Virou ano e chegou 2019, com uma avalanche de desafios, tristezas, e tudo de pior que um casal recém-casado pudesse esperar para os primeiros meses, ainda em fase de lua-de-mel. Mas, uma hora, a tempestade passa. A gente começa a controlar melhor o barco, surgem outras embarcações para ajudar e, quando a gente vê, está rindo de tudo que aconteceu, feliz com os braços agora mais fortes prontos para a próxima tormenta. 

 

Esse ano foi marcante em muitos aspectos. Muitas mudanças aconteceram e, a maioria delas, positivas. Cumpri o período da missão de 2,5 anos e era para ter ido partido daqui, não fosse o marido ter acontecido no meio do caminho. Mudamos para nossa casa própria, Deegii graduou e começou um novo trabalho de marketing na área farmacêutica, comecei a trabalhar numa universidade internacional, tive mais tempo livre para focar na minha nova família, e ganhei meu próprio programa de rádio para o qual, inclusive, me preparo para começar assim que terminar esse texto!

 

Deus não para de surpreender. Algumas vezes, demorei para entender qual direção tomar porque quis fazer meu próprio caminho. Esqueci que na minha mente tão finita, ingênua e ignorante, não cabia entendimento de tudo que o Arquiteto Maior planejava para a minha vida. Mas até aqui Ele tem me ajudado. Ele quer ajudar você também, sabia? Ele te convida a colocar todos os seus medos e receios nos ombros dEle. Quem sabe, para essa nova década que se inicia, esse seja o seu desejo, de deixar Deus ser Deus em sua vida. Eu e meu marido já decidimos. Te convido a tomar a mesma decisão. Você vai ver, lá em 2029, que foi a melhor opção que você poderia ter escolhido. Feliz novo ano!

 

 

Milena Mendes

 

Willy Macedo
Interplan