Espaço Literário • Entretenimento

09 de Dezembro de 2016

Gabriel Chalita: Falta "um sonho"

Dia desses, entrei em um táxi e fui em direção a uma palestra em uma universidade de São Paulo. O rádio estava ligado, sintonizado em uma emissora cujos comentaristas tentavam decifrar os imbróglios do momento atual da política. O taxista que já havia me cumprimentado com muita gentileza, ouvia atento aos comentários, e resolveu dar a sua opinião. "Sabe o que está faltando na política? Um sonho. Falta um sonho", insistiu ele.
        Dei margem à conversa. Quis entender melhor. “O que seria um sonho?”. E ele prosseguiu: "Cada um pensa em si. Ninguém se preocupa com ninguém. Um é mais ambicioso do que o outro. Quem é deputado não quer deixar de ser. Não vai apoiar reforma política que coloque em risco a sua reeleição. Então, não vai ter reforma política". Eu ia concordando e dando espaço para que ele prosseguisse: "O sujeito ganha para prefeito e não está satisfeito. Já quer ser governador. Ganha para governador e só pensa em ser presidente. É muita ambição e nenhum sonho".
        Fiquei refletindo sobre aquelas palavras. Sobre o descrédito da população em relação aos políticos. E concordando com a ausência de sonhos. O que leva alguém a entrar para a política? O que faz com que uma pessoa tenha um discurso antes e tenha outro depois da eleição? O que é o poder? Um projeto pessoal? Uma vaidade? Uma loucura? Uma forma de se dar bem na vida? Ou um sonho de melhorar o mundo? Como fazer com que as pessoas consigam discernir, consigam separar uns dos outros, como se separa o joio do trigo? Há tanta mentira. Há tanta dissimulação. E falta "um sonho".
        Saí do táxi agradecido. Quanta sabedoria havia naquelas palavras. Saí alimentado pela verdade e discernimento da opinião daquele senhor que circula com o seu carro pela cidade, conduzindo as pessoas e acreditando que um sonho muda muita coisa.

 

Cultura Inglesa
Willy Macedo