Rubens Shirassu Júnior • Articulistas

11 de Setembro de 2017

Cidade sem rosto 1

Ao centenário de Presidente Prudente

 

 

No fundo do quarto do fotógrafo há uma porta

que se abre para uma escada de ferro em caracol

pela qual desce

a fim de penetrar no bojo deste instante alucinado

da imagem aérea

nesta hora mais inexplicável

nesta hora mais absurda.

Os cowboys urbanos e virtuais

guardam seus rebanhos:

cavalos de raça do oeste americano

no sistema feudal de condomínios

sob os olhos da última sentinela da geração.

Uma paisagem de fortaleza com antenas parabólicas

entre chuva, sol a pino, ar seco e abafado.

 

 

Todos os trilhos convergem para um só ponto.

Os transportes coletivos lotados e interestaduais numa segunda-feira

bem cedo, são desejos oprimidos no coloquial.

E a saída de emergência, a locomotiva fora da estrada

de ferro não se encontra,

perdeu o rumo, sem perspectiva e à margem da linha.

Uma lotação de sonhos rodando por uma estrada de pesadelos!

A magia negra da cidade que se espreita, tensa e angustiada,

pelo ângulo da distância mínima,

as ruas e as avenidas estreitas, que a arrebata,

arrasta numa vertigem a alma.

Como o menino e a garota petiscos riem no espaço de luzes concisas,

de olhos violeta saltam para o pagode na face obscura da lua,

do terminal rodoviário.

Magias negras no inconsciente, esquecemos dos objetos

que guardamos no porão de nossas casas.

Os bairros das Vilas Marcondes, Furquim, Dubus,

Esperança, o centro, o Bosque, as avenidas Brasil, Marcondes,

Washington Luiz, Manoel Goulart, fragmentos de revistas

e jornais velhos sinalizando sua deterioração dramática

de pintura mofada de outono gasto.

Meus pés se afundam na pedra e no cimento do caminho,

e descubro o hálito quente da cidade-fantasma,

e a pulsação íntima da alma que busca

resgatar suas raízes entranhadas, além das arcadas dentárias

fossilizadas no chão.

 

 

 

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Willy Macedo
Interplan
Cultura Inglesa