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Minhas Corridas • Sinomar

03 de Dezembro de 2017 - DESAFIO EXTREMO
Maratona do Saara: 42 km para testar a determinação
Por: SINOMAR CALMONA

Tenho 58 anos e minha paixão pela corrida tem 15 anos. Começou na primeira prova de 5 km da Casa do Médico, prova de Presidente Prudente, em 2002, e me levou a uma das maratonas mais desafiadoras do mundo, no inóspito Deserto do Saara, norte da África, onde as temperaturas podem chegar 50°C durante o dia e -5°C à noite, condições climáticas que ampliam as dificuldades da mítica  prova de 42 km.

Há um ano recebia preparação específica do treinador Eliseu Sena para realizar esse sonho maluco de um maratonista amador, além de fisioterapia preventiva semanal na Clinica Pact (professores Diogo Pernas e Paulo Victor) e orientação do Laboratório de Alto Rendimento Esportivo da Unesp (professor Altair).

Os treinos de corrida, feitos durante a madrugada, quatro vezes por semana, não eram nada similares ao que encontraria no deserto quente. Nos sábados e domingos, corria ao meio dia para acostumar com o calor, pelas estradas boiadeiras de Prudente a Regente, e da Fazenda Pagador (entre Prudente e Pirapozinho). Treinos específicos eram desenvolvidos no campo de areia do Balneário da Amizade.

A maratona estava marcada para 19 de novembro, muito bem organizada pela catarinense Sports Do, mesma que realiza as provas do Deserto do Atacama, Fernando de Noronha e Ushuaia. O local escolhido, no Marrocos, era um trecho do Saara próximo de uma aldeia  bérbere chamada Merzouga, a 400 km de Casablanca, e 30 km da fronteira com a Argélia. O percurso tinha elevado grau de dificuldade por se tratar do Erg Chebbi, região das mais altas dunas do deserto que tem quase o tamanho do território brasileiro (9 milhões de km2) e atravessa 11 países do norte africano.

Chegamos a Merzouga na quarta feira que antecedeu a prova. O grupo ficou acomodado em pequenos hotéis localizados à margem do Deserto e que recebem turistas de todo mundo interessados em conhecer as belezas do deserto. Logo na chegada, por volta de meia noite conheci duas características marcantes do Saara: o frio da madrugada é de rachar, entre 3 e - 5 graus. E o céu estrelado é deslumbrante. Parece um planetário. Nunca vi uma noite tão bela e estrelada.

Os dias seguintes foram de adaptação à vida no deserto e conhecer o povo berbere. Uma parte abandonou a vida nômade e se fixou para trabalhar nos hotéis. A hospitalidade dessa gente do deserto acalentou nosso coração. Eles falam vários idiomas além do árabe, berbere e francês. A maioria também falava inglês e espanhol.

Noites de muita ansiedade. A proximidade do dia da corrida chegava provocar desespero. Difícil dormir. Tinha pesadelos me imaginando afundando na areia movediça (que disseram não existir por ali) ou me perdendo no deserto  (delírio).

 
 

Os dias passaram correndo. No sábado, a organização da prova passou as orientações de segurança, Era obrigatório usar cinto ou mochila de hidratação, apesar dos postos de reabastecimento que seriam posicionados a cada 7 km.

A fria madrugada de domingo 19 de novembro chegou rápida. Às 8 horas da manhã foi dada a largada rumo ao deserto total. A manhã era muito fria, 6 graus, mas adivinhava-se um sol aterrador. Larguei lá atrás, longe do pelotão de elite, liderado pelo marroquino Abdelkaden El Mouaziz, bicampeão da Maratona de Londres, vencedor de Nova York,além da presença em duas olimpíadas (ele venceu essa prova também, com tempo de 3:21:25, seguido pelo brasileiro José Virginio de Moraeis, com 3:27:09, e Filipe Cotta Magalhães em terceiro com 3:53:37).

 

Não parar

até chegar

 

 

Correr, correr, e não parar de correr até chegar. Era meu mantra, repetido várias vezes desde a largada. Sabia da dureza da prova, que devia manter um ritmo constante para chegar, ao mesmo tempo traçando uma estratégia que evitasse a desidratação e a fadiga. A dica era tomar água, aos pouquinhos, o tempo todo. No deserto, quando você percebe que tem sede, já está desidratado.  Mas é preciso achar um equilíbrio: excesso de água também mata (A hiponatremia, excesso de ingestão de água leva a um desequilíbrio da presença de sódio no sangue).

“Irmão, se seu tentar desistir não deixa não", pedia ao meu amigo Antonio Augusto, de hoteleiro em Olímpia,  parceiro de outras maratonas no Atacama e em Ushuaia.

Estratégia era poupar energia que poderia fazer falta lá na frente. O primeiro trecho teve 1,5 km de dunas, percurso muito instável, cheio de sobe e desce, até chegar a uma estradinha de chão batido e areião que dava no vilarejo berbere de Merzouga. O povo esperava os corredores na rua, aplaudia e incentivava. Gente simples, carinhosa.

Na saída de Merzouga atravessamos o Portal do Saara.  O aviso que ali era o km 4,5 início do provocava uma mistura de emoções. A excitação era uma delas.

Tentava curtir o que podia para não pensar no tamanho da encrenca que havia me metido.

O trecho seguinte parecia fácil. Era uma estrada. Ledo engano. Era a estrada do famoso rallye Paris Dakar, aquela mesma em que os carros aparecem dançando no areião. Se os carros 4 x 4 dançavam, imaginem nós... Os pés afundavam e a corrida não evoluía. Difícil encontrar a pisada correta.

Mas o pior estava por vir.

Um pouco adiante passamos pelas ruínas de um posto da famosa Legião Estrangeira, unidade militar da França criada no século 19. Até o km 13 ainda encontrávamos o povo do deserto, tocando seus camelos. Uma tenda num oásis aqui, outro ali. Eles acenavam, passando energia e motivação para seguirmos em frente.  Há séculos essa região é habitada apenas por quem a respeita. Toque de recolher existe em todos os povoados em volta do Saara.

Duas horas depois do início da corrida, chegava o Deserto Negro, região extensa, cuja coloração resulta da existência de basaltos (rocha vulcânica).  A bússula indicava o caminho a seguir. Ao lado estava o território minado da Argélia. No solo pedregoso do Deserto Negro, doíam as solas dos pés. Pedrinhas vulcânicas ponte-agudas chegavam a perfurar a sola do tênis. Incomodaram mas não abatiam. Foi o trecho em que corri num ritmo melhor. Acabando o Deserto Negro, voltamos a outro trecho da famigerada estrada do Rallye Paris Dakar, difícil de correr. Os pés dançavam ou afundavam na areia.

“Calma que vai piorar”, brincava Rogerio Almeida, empresário paulistano que corria ao meu lado nesse trecho. “Vamos chegar, força!”, gritava outro amigo e parceiro das corridas de aventura, o paulistano Marcelo Covas.

No terceiro posto de hidratação um marroquino alertou: as dunas de Erg Chabi, as maiores do Saara, estão logo ali. Agora partíamos para uma região parecida com cenário cinematográfico. O céu incrivelmente azul e um mar de dunas. Paisagem formidável em um dos climas mais inóspitos do mundo.

Meu Deus, será que vou chegar do outro lado? Assustador, mas não tinha volta. Desci a primeira duna, em saltos. Lá embaixo lembrei que havia esquecido de beber e tomar água da mochila. Agora já foi! Parti.  Tinha 2 litros de água na mochila. Assim fui, na longa jornada de sobe e desce das dunas, horas repetindo isso sem parar.

A beleza e brutalidade do deserto testaria todas as partes de nós. E tínhamos pouca idéia de quanto.

 

Imensidão

e silêncio

 

Desnorteado pelo sol nuclear e a monotonia do deserto, cheguei a me desligar por algum tempo. Momento perigoso para errar. Ao tentar contornar uma duna me afastei da trilha marcada pelos passos dos corredores à frente e não encontrei mais as bandeiras de sinalização. Fiquei perdido por longos 40 minutos. Era um misto de excitação, êxtase e desespero me ver sozinho no meio do deserto. A imensidão  e o silêncio do Saara apavoram! Testaram-me absolutamente. Houve momentos em que pensei que não poderia dar mais um passo e outros em que simplesmente não queria. Foi sem dúvida o esforço físico mais difícil que eu já sujeitei meu corpo. O deserto não pode ser subestimado. Ele irá testá-lo para seus limites e tentará quebrá-lo. Com calma e auxílio da bússula consegui reencontrar o caminho e afastar o pavor da possibilidade de passar a noite no deserto.

Superado o medo veio com tudo o quilômetro 30, a distância marcante da maratona, quando tudo começa a doer, até ossos e músculos que você nem sabe que tem.

Tanto tempo de corrida na areia fofa aumentou muito a sobrecarga nos tendões e panturrilhas.  Para piorar, as polainas que cobrem os tênis não resistiam às pisadas na areia.  A areia entrava pelas meias. No começo era incomodo. Depois virou dor. A fricção com o suor provocava bolhas, que estouravam e  machucavam. Unhas soltas avisavam que iam cair. 

Dilacerado pelas dores, o esforço excessivo e a sensação térmica inclemente acima de 40 graus, tentei tomar um relaxante muscular , mas acabei vomitando o comprimido por causa da água quente da mochila nas costas. Você não consegue sentir o suor escorrer pelo seu rosto porque está evaporando no calor do cozimento. Seus pulmões se sentem ressecados. Parte do seu cérebro está gritando para você parar, agora mesmo, mas a outra parte do seu cérebro é mais forte. O sol arde. As dores continuam. Acalmo, foco no objetivo (chegar) e continuo. Um pé na frente do outro, até chegar. Só fazer isso, não interessava quanto tempo durasse.

Voltei ao sobe e desce de quilômetros intermináveis, num rumo só. Tinha que dar certo. Dunas depois finalmente visualizei uma bandeirinha amarela de sinalização da prova, e lá na frente o que parecia um bonezinho laranja de um corredor balançando prá lá e prá cá. Acelerei o passo para me aproximar dele. Ufa! Sozinho, o deserto amedronta.

De repente visualizo ao longe o lugar da linha de chegada. Parece perto, mas ainda são quilômetros adiante. As forças vêm de uma vontade indomável e se renovam.

Era tão perto que já tinha sinal de celular e aproveitei para fazer uma live narrando a experiência.

Segui e mirei no alvo para completar, confiante na maratona do meu interior.

Cerca de 6h45 da largada e centenas de dunas depois a dor se misturou com o prazer raro de se aproximar da chegada, conquistar algo pelo qual tanto me esforcei durante um ano e transformar essa experiência em combustível para superar desafios que a vida impõe.

A chegada foi emocionante, uma experiência mística. 

Quando vou me aproximando, parece que vejo minha mãe de pé me aplaudindo. Miragem. Alguns colegas de prova aguardavam minha chegada e gritavam para me animar. Completei, e desabei.

Com a medalha no peito, deitei num tapete, e fiquei olhando para o céu azul sem fim do Saara. A fadiga era maior que o deserto. Chorei e agradeci por completar minha oitava maratona, uma experiência física, cultural e emocional maravilhosa e inesquecível, a mais dura da minha trajetória de corredor amador, amante das provas de aventura.

Venci o medo para realizar um sonho esportivo, e não me arrependo da loucura.

Que venha a próxima!

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12 de Dezembro de 2017
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