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05 de Fevereiro de 2018

O álcool: o que mais além de um prazer?

            O álcool, como bebida, foi primeiramente produzido pelos árabes em 800 a.c. e tinha o significado de “alguma coisa sutil”. Mas tarde surgiu o uisque, sujo significado em gaélico (usquebaugh) era “água da vida”. Curiosidades históricas à parte, nestes 2.800 anos que se passaram surgiram vários tipos de bebidas contendo álcool, além dos preparados com outros ingredientes (drinks, batidas, ices etc).

            As bebidas alcoólicas têm importância econômica mundial. No Brasil, o consumo é de aproximadamente 17 bilhões de litros/ano (cerveja 89%, destilados 7,5% e outros 3,5%). Esse montante é equivalente ao consumo per capita de 85L/ano para cada brasileiro de qualquer idade. É um mercado que movimenta aproximadamente R$ 100 bilhões/ano (SEBRAE). Não por acaso, e apesar de todos os males sociais e ônus ao sistema de saúde público e privado, o álcool é classificado como uma droga do rol das legalmente comercializadas e socialmente toleradas. Como droga, é amplamente estudada pela toxicologia, farmacologia, bioquímica, fisiologia e psicologia.

            O teor alcoólico pode variar de baixo (4-6% na composição da cerveja), médio (10-15% no vinho) e alto (40% ou mais nos destilados, como cachaça, uísque, vodka etc). Outro indicador usado é o grau alcoólico, que é sempre o dobro do percentual de álcool contido na bebida (exemplo: cerveja tem grau 8-12). A dose é o termo utilizado para designar as quantidades, sendo padronizado de 350mL de cerveja, 150mL de vinho e 45mL de destilados. Você sabe que, em “cada uma” destas doses são encontrados 14g de álcool? Pois é uma informação conhecida por poucos.

            Ao ser ingerido, o álcool é absorvido rapidamente, parte já na passagem pelo estômago, e o restante no intestino delgado, onde são absorvidos também os nutrientes das refeições. Com o consumo contínuo (várias doses), como acontece normalmente, o pico alcoolêmico (álcool no sangue) acontece a partir dos 30 min do início da ingestão e se prolonga enquanto for mantido o consumo.

            Do álcool que chega ao sangue, 95% é metabolizado pelo fígado e 5% é eliminado no suor, na expiração (o bafo!) e na urina (pequenina porção de toda a água que é eliminada durante a ingestão do álcool, pois este tem efeito diurético - aumenta o volume de urina). Agora lembre-se da quantidade de álcool por dose: 14g. Você sabe que o fígado é apto a metabolizar apenas 8g de álcool por hora (8g/h)[1]. É outra informação conhecida por poucos. Considere um bebedor de cerveja que consome 4 latas de 350mL a cada hora e ele terá 56g de álcool diluído no sangue. Neste caso, o fígado metaboliza 8g e sobram 48g de álcool sem metabolizar, circulando nos órgãos e tecidos no intervalo de uma hora.

Uma das enzimas responsável pelo metabolismo do álcool é a álcool desidrogenase (ADh), que o transforma em acetaldeído. É possível que o consumo crônico de álcool leve ao aumento do número de ADh e torne a pessoa mais tolerante a poucas doses de álcool. O sistema nervoso central também pode ter papel na tolerância, pois nas pessoas que ingerem álcool cronicamente, são necessárias doses cada vez maiores para ativar a produção de neurotransmissores da “recompensa”, responsáveis pela sensação de prazer.

            No metabolismo do álcool, além do acetaldeído, também são produzidos radicais livres, que são responsáveis pela destruição de moléculas essenciais às células, incluindo lipídios, proteínas e o DNA, o que leva à perda da função celular e formação de tumores [2]. O acetaldeído, por si (antes de ser transformado em acetato), pode danificar o DNA de células tronco do sangue e estas, em razão de sua circulação, se espalhar e causar tumores em outros tecidos e órgãos [3]. Você sabe que as pessoas que ficam vermelhas com pequena quantidade de álcool possuem pouco da enzima aldeído desidrogenase (ALDh) que metaboliza o acetaldeído? Dessa forma, são mais sujeitas aos efeitos danosos do acetaldeído. Pois é outra informação conhecida por poucos.

            O álcool que fica circulando antes de ser metabolizado (enzimas acima) por alguns efeitos no sistema nervoso central, como a desinibição, sedação, euforia, ataxia (descoordenação motora) e depressão. Tem efeito neurotóxico que leva à perda de neurônios e lesão cerebral, redução do metabolismo cerebral, deficiência da função cognitiva e do discernimento e à demência.

            O fígado metaboliza o álcool, pois possui as enzimas mencionadas, mas é também sua vítima, primeiro acumulando a gordura (esteatose hepática) resultante do metabolismo do álcool e depois evoluindo para as doenças inflamatórias conhecidas como hepatite e cirrose. Todo álcool metabolizado pelo fígado é transformado em gordura. Mais uma informação conhecida por poucos.

            A função sexual masculina pode ser também prejudicada, pois apesar de o álcool estimular a libido (desejo sexual), cronicamente provoca atrofia dos testículos, disfunção sexual (impotência) e até mesmo infertilidade.

            Os músculos podem ser também prejudicados, pois o álcool diminui a atividade das enzimas, diminui a síntese protéica, diminui as reservas de glicogênio (energia) e diminui a força muscular. Portanto, a associação muito comum entre prática de exercícios e posterior consumo de grandes volumes de álcool não é recomendada. Não por acaso, o álcool é “proibido” para os atletas competitivos.

Na prática, basta uma dose de álcool (14g) para provocar alcoolemia de 20-30 mg/dL, o que já diminui a capacidade de raciocínio, aumenta a impulsividade, aumenta o tempo de reação aos estímulos (que é ruim!) e diminui o controle motor (estes últimos muito importantes para dirigir um veículo com segurança). Três doses provocam alcoolemia de 70-90 mg/dL, considerada como intoxicação. A partir de 10 doses a alcoolemia chega a 150 mg/dL, considerada intoxicação grave, enquanto a de 400 mg/dL é considerada fatal, pois causa anestesia geral, depressão respiratória, coma e morte.

A relação com o álcool, que por vezes é muito íntima, frequente e excessiva, vale uma discussão e reflexão, pois cerca de 10% dos consumidores evoluem para a doença alcoolismo, caracterizada pelo uso compulsivo, dependência e consequências físicas (mencionadas acima e outras) e sociais. Qual a real importância do álcool em seu convívio social e em sua vida? Alguns dos efeitos danosos do álcool são imediatos e outros ocorrerão em médio e longo prazo. Desse modo, há muitos “custos” e nenhum benefício para a saúde e longevidade com qualidade de vida.

 

 

[1] Brunton LL, Lazo JS, Parker KL. Goodman & Gilman as bases farmacológicas da terapêutica. 12.ed. Rio de Janeiro: McGraw Hill Artmed; 2012.

 

[2] Wu D, Cederbaum AI. Oxidative stress and alcoholic liver disease. Semin Liver Dis 2009 May;29(2):141-54.

[3] Garaycoechea JI, … Patel KJ. Alcohol and endogenous aldehydes damage chromosomes and mutate stem cells. Nature. 2018. http://dx.doi.org/10.1038/nature25154

 

4 fevereiro 2018

 

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Doutor em Fisiologia Humana pela USP

Professor do Curso de Educação Física da UNOESTE

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