Rubens Shirassu Júnior • Articulistas

02 de Maio de 2018

As raízes edênicas do Brasil

Pintura Jardim das Delícias de Bosch

 

 

Sobre Sérgio Buarque de Holanda não há nada definitivo. Os estudiosos estão sempre descobrindo coisas de espantar. Uma verdadeira joia das ciências sociais das Américas. Visão do Paraíso é uma grande referência especial, notadamente da historiografia, do país. O livro, de pesquisa e de consulta, vem a ser, assim, uma das mais notáveis realizações editoriais. Distingue-se, também, pela qualidade de seu volume. Publicado pela primeira vez em 1958, vem sendo reeditado pela importância que tem.

Trata-se, na verdade, de um dos livros mais notáveis da historiografia brasileira. Sobre “os motivos edênicos no descobrimento e colonização”, estuda assunto que diz respeito não só ao Brasil, mas à América Latina, para não dizer à mentalidade do Ocidente. A busca de novas terras ou o alargamento do ecúmeno estão ligados a uma tendência natural do homem, não só pela curiosidade ou desejo de expansão, mas também pelo ardor de conquista, para a afirmação do poder político ou enriquecimento, com a descoberta de novos recursos econômicos ou de outras áreas em que os elementos já conhecidos sejam mais facilmente encontráveis. O crescimento da economia foi em certo instante, sobretudo, a incorporação de novas faixas territoriais, como se viu nos séculos XV e XVI, com a expansão do capital comercial na primeira fase do mercantilismo. A mente dos homens era dominada não só por motivos econômicos, mas também edênicos. O encontro do habitante em estado supostamente natural despertou o sentido de aventura, a criação artística, a experiência científica, confundidos com o mito ou o sentido religioso.

O tema é de difícil deslinde, pelo que requer de erudição, conhecimento historiográfico, antropológico, etnológico, sociológico, filosófico, religioso, literário. A erudição para cobrir área dilatada de conhecimento e a cultura para bem assimilá-los e interpretá-los. Entre nós, só Sérgio Buarque de Holanda poderia escrever livro de tal riqueza e abrangência. Tinha para a tarefa a vastidão de informações e a sensibilidade para apreender experiências ou imaginações tão requintadas. Escreveu assim um texto singular na bibliografia nativa, que não prima pela erudição nem pela temática de alto voo.

Visão do Paraíso despertou a atenção dos círculos de estudos brasileiros e pode chegar ainda a todos os iberos, pois fala do espanhol e do português, como de suas projeções na América. O texto é instigante e de superior realização literária. Buarque de Holanda escreveu aqui uma de suas obras mais valiosas e permanentes, que marcam o seu lugar no quadro da cultura do continente.

 

 

*Rubens Shirassu Júnior, escritor e pedagogo de Presidente Prudente, São Paulo. Autor, entre outros, de Religar às Origens (ensaios e artigos, 2011) e Sombras da Teia (contos, 2017)

 

 

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Willy Macedo
Interplan
Cultura Inglesa