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03 de Maio de 2018

Quanto você está preparado para os desafios inesperados da vida?

Uma das características de nossa cultura é o improviso. Planejar, treinar, treinar, treinar e executar ou estar preparado para executar quando necessário não são práticas amplamente utilizadas pelos indivíduos em geral. Mas é claro que em empresas bem organizadas e administradas, assim como em órgãos do governo há planejamento. Este é imprescindível por vários motivos.

Uma das ações planejadas pelo governo, por exemplo, é a vacinação em massa. A vacinação é a administração de um vírus atenuado ou morto que impõe um desafio fisiológico ao organismo, fazendo com que este produza proteínas de defesa (imunoglobulinas) que o deixam preparado para enfrentar com mais eficiência o vírus vivo e potente que pode causar a doença.

A essas adaptações que ocorrem quando há contato com desafios fisiológicos ou estresse que tornam o organismo mais apto a enfrentar desafios maiores ou estresses mais intensos, se dá o nome hormese. Portanto, a vacinação é um exemplo de adaptação hormética.

A Teoria da Seleção Natural de Charles Darwin está baseada na hormese, na medida em que a sobrevivência dos seres vivos depende de sua capacidade para adaptar-se e superar as condições de estresse do meio ambiente. O famoso filósofo Friedrich Nietzsche resumiu a hormese numa de suas frases mais conhecidas: “Aquilo que não me mata, só me fortalece”.

Cada experiência vivida pelo ser humano induz adaptações e o modifica de alguma forma. Observações e estudos demonstram que o enfrentamento e superação de um problema torna a pessoa mais resistente e forte. Suas funções fisiológicas são aprimoradas e ficam mais aptas para o enfrentamento de situações mais difíceis. Essa adaptação por vezes recebe a denominação de Crescimento Pós-Traumático, cujo significado é semelhante ao de hormese.

Hormese pode ser definida de maneira simples como obtenção de efeitos benéficos a partir de estresse de baixa intensidade. A exposição a um estresse incomum e de baixa intensidade (fase de Alarme) provoca uma resposta e adaptações no organismo. Os estímulos que desencadeiam os mecanismos de resistência e adaptação podem ser de diferentes naturezas, incluindo exercício físico, restrição alimentar, estímulos cognitivos e exposição a baixas doses de toxinas, como o álcool, por exemplo [1,2]. Na segunda fase do estresse, de Resistência, ainda pode haver adaptação, mas não da terceira fase, de Esgotamento (Figura). 

Entre estes estímulos, provavelmente o mais utilizado e mais seguro seja o exercício físico. Alguns autores mencionam que os benefícios proporcionados pelo exercício físico são resultantes de adaptações horméticas. Até mesmo a prevenção de doenças, melhor qualidade de vida na senescência e extensão da longevidade estão relacionadas com a hormese [3]. De fato, o exercício físico costuma “ampliar os limites” do indivíduo e desenvolver uma condição de maior predisposição mental para superar os desafios diários, não somente no aspecto físico, como também no mental. O nível superior de tolerância ao estresse psicofisiológico torna o indivíduo fisicamente ativo mais resistente e permite a constante auto-superação nos distintos domínios da vida, seja pessoal, familiar, escolar ou profissional.

Isso ocorre, sobretudo em crianças, adolescentes, pessoas idosas ou com problema de saúde, quando existe necessidade diária de superar limites. Por exemplo, cuidadores de pessoas com doenças crônicas enfrentam melhor o estresse e têm menor número e gravidade de distúrbios físicos e emocionais quando praticam exercício físico. Há também evidências que, crianças fisicamente ativas tendem a apresentar melhor rendimento escolar.

 

Mas recentemente, foi renovado o interesse em estudos sobre o consumo de dietas com restrição calórica ou de carboidratos (Dieta sem carboidratos: como seu corpo suporta essa restrição) e estratégias de jejum intermitente, como formas de promover adaptações benéficas desde a perda do excesso de gordura, controle dos fatores de risco para doenças cardiovasculares e do grau de inflamação sistêmica (“Restrição calórica pode modular sua saúde”). Obviamente são condições que impõe desafios e caracterizam alterações horméticas [5].

O exercício físico, portanto, poderia se caracterizar como uma estratégia ou planejamento para treinar, treinar, treinar e estar preparado para os “desafios inesperados da vida”. O treinamento físico, principalmente aquele que requer maior esforço, concentração e disciplina, tem importante componente psicosóciocomportamental que prepara o indivíduo para a “competição da vida”, ou seja, os desafios não apenas físicos, mas também cognitivos, psicológicos, sociais etc, que muitas vezes surgem inesperadamente ante o indivíduo.

Assim, o exercício físico, associado com um processo de educação e auto gestão em saúde para adoção de comportamentos saudáveis, contribui significativamente para que o indivíduo possa executar com sucesso as diversas atividades da vida diária e tolerar mais adequadamente os agentes estressantes aos quais é exposto diariamente. Ainda que os aspectos de hereditariedade tenham sua influência na condição do indivíduo, práticas tais como as descritas acima podem minimizar essa influência. Tome o exemplo de um indivíduo cujos familiares mais velhos sofrem de diabetes não dependente de insulina (Tipo 2). Provavelmente esse indivíduo tem a propensão para a mesma doença, porém pode diminuir bastante esse risco consumindo dieta saudável, praticando exercício físico e mantendo adequado seu peso corporal.

A hormese vem sendo considerada como uma medida efetiva para controlar o grau de inflamação sistêmica, proteção contra doenças como as cardiovasculares, o diabetes, os cânceres e os distúrbios neurodegenerativos. A natureza de alguns estímulos horméticos (agentes químicos, álcool e drogas, por exemplo), em razão dos riscos potenciais e de aspectos éticos, não permite que sejam recomendados sem a realização de estudos científicos. Porém, o exercício físico e suas adaptações podem já ser entendidos como Condicionamento Físico Preventivo para os fatores de risco e para as doenças.

Planejamento, treinamento, treinamento, treinamento, prevenção ou enfrentamento de desafios inesperados. Prepare-se para o desafio da melhor saúde e maior longevidade.

 

1. Rattan SIS, Demirovic D. Hormesis can and does work in humans. Dose Response. 2009;8(1):58-63. https://doi.org/10.2203/dose-response.09-041.Rattan

2. Masoro EJ. Caloric restriction-induced life extension of rats and mice: a critique of proposed mechanisms. Biochimica et Biophysica Acta. 2009;1790(10):1040-1048. https://doi.org/10.1016/j.bbagen.2009.02.011

3. Ji LL, Dickman JR, Kang C, Koenig R. Exercise-induced hormesis may help healthy aging. Dose Response. 2010;8(1):73-79. https://doi.org/10.2203/dose-response.09-048.Ji

4. Mattson MP. Hormesis and disease resistance: activation of cellular stress response pathways. Human Experimental Toxicology. 2008;27(2):155-162. https://doi.org/10.1177/0960327107083417

5. Horne BD, Muhlestein JB, Anderson JL. Health effects of intermittent fasting: hormesis or harm? A systematic review. American Journal of Clinical Nutrition. 2015;102(2):464-470. https://doi.org/10.3945/ajcn.115.109553

 

3 maio 2018

 

 

Interplan
Willy Macedo
Cultura Inglesa