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26 de Maio de 2018

E a melhor de todas as dietas para saúde é ...

Imagine uma hipotética competição entre dietas para conhecer a campeã em benefícios para saúde, para longevidade e até para a perda de peso. As diferentes e mais conhecidas dietas que já estiveram em alta em tempos passados ou que estão na moda atualmente seriam inscritas pelos seus idealizadores que apresentariam os supostos benefícios de cada qual.

A competição aconteceria num ginásio bem grande com milhares de seguidores dessas dietas, cada um torcendo apaixonadamente para a vitória de sua preferida. As regras da competição seguiram o modelo do debate entre políticos candidatos à presidência: cada idealizador da dieta teria 5-10 min para apresentação dos benefícios da sua dieta e, em seguida, os demais poderiam questionar as “fraquezas”, havendo o direito à réplica. Haveria também um grupo de jurados para escolha da vencedora.

Certamente haveria a participação de várias dietas que poderiam ser agrupadas como “as cetogênicas”. Esse seria o grupo mais numeroso, pois entre as dietas da moda que se revezam de tempos em tempos, nove entre dez dietas são cetogênicas (atualmente denomindas de LOW CARB). São todas aquelas que praticamente proíbem o consumo de carboidratos (5 a 10% apenas; normal é 60%), limitando ou excluindo o consumo de farinhas, açúcar e outros. São caracterizadas pelo consumo elevado de produtos animais riscos especialmente em proteínas e gorduras saturadas. O baixo consumo de carboidratos impõe adaptações metabólicas, fazendo com que o corpo produza a própria glicose que precisa e também passe a utilizar a gordura das reservas e os corpos cetônicos produzidos pelo fígado (daí o nome cetogênica) como combustíveis energéticos (“Dieta sem carboidratos: como seu corpo suporta essa restrição”). Em geral essas dietas são muito utilizadas para a perda do excesso de peso e funcionam porque também há restrição do consumo de calorias e uma deficiência energética (consumo < gasto). As competidoras deste grupo seriam: Dieta do Dr. Atkins, Dieta do Ponto Z, Dieta de South Beach (a primeira já com quase “50 anos de idade” e as outras com média de “20 anos”), Dieta do Abdome, Dieta de Dukan, Dieta Paleolítica (Páleo), Dieta Whole 30.

A dieta cetogênica pode alterar o balanço de eletrólitos (sais minerais), de fluidos corporais e a concentração dos lipídios cerebrais, sendo indicada como tratamento dietoterápico (fora dos padrões normais) em alguns casos (como epilepsia), com supervisão especializada. Indivíduos submetidos à dieta cetogênica apresentaram reduções significativamente maiores no peso corporal, pressão sanguínea diastólica e triacilglicerois, quando comparados com indivíduos submetidos à dieta com restrição calórica total [1]. Porém, a dieta cetogênica tem potenciais riscos de complicações metabólicas, desenvolvimento de acidose metabólica, efeitos adversos para o sistema renal e risco de osteoporose. Sua eficácia e segurança também não foram cientificamente testadas em longo prazo.

As dietas com valor calórico muito baixo (VLCD), restrição calórica, jejum prolongado (em dias alternados) e jejum intermitente têm se mostrado eficientes para perda do excesso de peso pela simples razão de causarem deficiência energética (consumo < gasto) [2]. Além disso, a restrição calórica e o jejum intermitente têm se mostrado benefícios na prevenção e controle das doenças crônicas, proporcionando maior longevidade [3,4]. Entre as hipóteses propostas para esses benefícios, está o efeito hormético, ou seja, adaptações do metabolismo às restrições (“Quanto você está preparado para os desafios inesperados da vida?”) [5]. Um desafio a ser vencido pelos adeptos destas dietas restritivas é o do equilíbrio dos nutrientes, ou seja, como consumir todos os nutrientes (especialmente vitaminas e minerais) nas quantidades necessárias ao mesmo tempo em que o número de refeições e a quantidade de cada uma delas permanecem reduzidos [6].

Finalmente, seriam apresentadas as duas dietas que melhor representam a categoria das “antiinflamatórias e antioxidantes”, a Mediterrânea e a DASH (Dietary Approach to Stop Hypertension ou estratégia dietética para cessar a hipertensão arterial). Ambas são caracterizadas pelo consumo de muitos vegetais crus e cozidos, grãos integrais, oleaginosas e peixes ricos em ácidos graxos poliinsaturados ômega-3, laticínios desnatados, pouca carne vermelha, poucos ovos, pouco sal, nada de alimentos embutidos e ultraprocessados. A Mediterrânea é caracterizada também pelo consumo de azeite e de vinho em quantidades moderadas [7,8], enquanto na DASH o consumo de álcool não é recomendado. Em ambas o consumo elevado de fitoquímicos (componentes funcionais dos vegetais) e o consumo reduzido de gorduras saturadas, de produtos de farinha de trigo e de açúcar proporcionam menor grau de inflamação sistêmica e de oxidação dos componentes celulares e lipídios sanguíneos, prevenindo as doenças crônicas e diminuindo a taxa de mortalidade entre seus usuários [9].

Obviamente, apesar das qualidades dessas duas dietas, os resultados e benefícios podem ser ainda maiores quando associadas com restrição calórica leve e prática regular de exercícios [10]. E no final, após todas as argumentações, os jurados analisariam as informações e decidiriam quase unanimemente pela vitória das dietas com potencial de controle da inflamação sistêmica e das doenças crônicas: Mediterrânea e a DASH. Fariam ainda menção para restrição calórica e jejum intermitente em razão de seu potencial para controle das doenças e aumento da longevidade.

 

1. Bueno NB, Melo IS, Oliveira SL, Rocha Ataide T. Very-low-carbohydrate ketogenic diet v. low-fat diet for long-term weight loss: a meta-analysis of randomised controlled trials. Br J Nutr. 2013;110(7):1178-87. https://doi.org/10.1017/S0007114513000548

2. Byrne NB, Sainsbury A, King NA, Hills AP, Wood RE. Intermittent energy restriction improves weight loss efficiency in obese men: the MATADOR study. International Journal of Obesity. 2017;42:129-138. http://dx.doi.org/10.1038/ijo.2017.206

3. Fontana L, Partridge L. Promoting health and longevity through diet: from model organisms to humans. Cell. 2015;161(1):106-118. http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2015.02.020

4. Mattson MP, Wan R. Benefical effects of intermittent fasting and caloric restriction on the cardiovascular and cerebrovascular system. Journal of Nutritional Biochemistry. 2005;16:129-137. http://dx.doi.org/10.1016/j.jnutbio.2004.12.007

5. Horne BD, Muhlestein JB, Anderson JL. Health effects of intermittent fasting: hormesis or harm? A systematic review. American Journal of Clinical Nutritition. 2015;102:464-470. http://dx.doi.org/10.3945/ajcn.115.109553

6. Simpson SJ, Le Couteur DG, Raubenheimer D. Putting the Balance Back in Diet. Cell. 2015;161(1):18-23. http://dx.doi.org/10.1016/j.cell.2015.02.033

7. Buckland G, Bach A, Serra-Majem L. Obesity and the Mediterranean diet: a systematic review of observational and intervention studies. Obes Rev. 2008 Nov;9(6):582-93. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-789X.2008.00503.x

8. Adomaityte J, Mullin GE, Dobs AS. Anti-aging diet and supplements: fact or fiction? Nutr Clin Pract. 2014 Dec;29(6):844-6. http://dx.doi.org/10.1177/0884533614546889

9. Sotos-Prieto M, …, Hu FB. Association of changes in diet quality with total and cause-specific mortality. The New England Journal of Medicine. 2017;377(2):143-153. http://dx.doi.org/10.1056/NEJMoa1613502

10. Blumenthal JA, …, Hinderliter A. The effects of the DASH diet alone and in combination with exercise and caloric restriction on insulin sensitivity and lipids. Hypertension. 2010;55(5):1199-1205. http://dx.doi.org/10.1161/hypertensionaha.109.149153

 

 

25 maio 2018

 

 

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Doutor em Fisiologia Humana pela USP

Professor do Curso de Educação Física da UNOESTE

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