Diego Ariça Ceccato • Articulistas

29 de Maio de 2018

O ódio a política e a marcha da insensatez

Assistimos no Brasil um fenômeno que embora mundial, aparentemente é mais acentuado por essas terras. O ódio e o desprezo pela política parece ser algo quase unânime entre os brasileiros. Não vou cair no clichê de citar Nelson Rodrigues e dizer que toda unanimidade é burra, mas nesse caso, esculachar e negar a política como temos feito, não poderia haver burrice maior. É fato que boa parte da classe política contribuiu para tal situação. Com seus acordos espúrios de bastidores, casos e mais casos de corrupção, deboche para com o povo brasileiro, gastanças e privilégios desnecessários. Tudo isso é verdade e aliado a espetacularização dada pela imprensa e pelas redes sociais, faz com que cheguemos na atual situação. No entanto, apesar de todas as verdades ditas acima sobre a classe política, há um movimento perigoso em curso, ao qual, se quisermos sair dessa crise institucional, devemos nos atentar e mais do que isso, combater. Há hoje em curso, e isso já vem ocorrendo desde 2016, após impeachment de Dilma Rousseff, a tentativa de nivelar todos por baixo, de dizer que nenhum político presta e que todos são bandidos. Vamos com muita calma! Esse tipo discurso só favorece aos piores políticos, aqueles que estão afundados até o pescoço com casos de corrupção e má gestão. Há muita gente boa por aí, muito político bom, e esses estão sendo achincalhados pela sociedade como se todos fossem iguais. Alguém diria que não há político santo e que todos cometem erros. Eu não poderia concordar mais com tal afirmação, mas lembro, não há ninguém santo e todos nós cometemos erros. Mas erros possuem medidas, há pesos diferentes para erros diferentes.

Para utilizar uma imagem dentro da minha área, não podemos igualar um aluno que copiou indevidamente um trecho de um trabalho na internet com alguém que pagou para o outro fazer o trabalho. Os dois estão errados, mas são erros com pesos diferentes. Ninguém quando analisado com uma lupa passa por um crivo extremamente rigoroso da moral. Isso não significa que devemos fechar os olhos e não combater os erros e desvios, mas é preciso colocar cada coisa em seu lugar, não podemos punir da mesma forma alguém que de um soco no rosto de outra pessoa e alguém que atire no rosto de outra pessoa. As duas coisas merecem punição, mas são coisas muito diferentes! Nós brasileiros perdemos essa noção básica de gravidade das ações, e jogamos todos no mesmo saco, como se nenhum político prestasse e todos fossem bandidos.

Não há país no mundo que tenha se desenvolvido sem política, sem a boa política. Não me peça para apontar então algum político honesto. Não é meu papel como articulista, mas sim alertar a essa marcha da insensatez. Estamos chegando ao ponto de muita gente preferir um regime autoritário, sem poder de escolha de qual governante queremos colocar no poder, a democracia, onde claramente, mesmo com todos os erros, ao menos temos o poder de escolha

de quem colocar no poder e a possibilidade de troca a cada 04 anos. Em regimes autoritários essa possibilidade não existe.

Enfim, reflitamos, é essa sociedade que queremos? Uma sociedade que julga a tudo e a todos, onde todos políticos viraram bandidos, julgados pela própria população (ou seria pelas redes sociais?) sem direito de defesa, sem importar o que diz a justiça.

É isso que queremos como sociedade? Se for, boa sorte a nós!

Willy Macedo
Cultura Inglesa