Rubens Shirassu Júnior • Articulistas

01 de Junho de 2018

Alternativas para conquistar leitores

Em todo o Brasil existem menos livrarias estrito sensu do que em Buenos Aires: pelo que informa a Associação Nacional de Livrarias (ANL) São Paulo tem 390 livrarias, ou 3,5 livrarias para cada grupo de 100 mil habitantes. Mas, pelos dados levantados pela entidade, o Brasil tem 3.100 livrarias, se comparando às 734 de Buenos Aires, que oferece 25 livrarias para cada grupo de 100 mil habitantes, o que derruba o mito antigo da capital portenha que teria mais livrarias do que o Brasil. Uma informação curiosa de um consultor argentino que monitora a produção editorial, as livrarias independentes têm um papel fundamental no mercado livreiro portenho. Por esse motivo algumas editoras tentaram explorar há 35 anos e com resultados insatisfatórios nos dias atuais, alternativas como a venda em bancas. Existem outros locais autorizados para a venda de livros, como supermercados, farmácias, lojas de departamentos e postos de gasolina, o número de pontos de venda em potencial saltou espetacularmente para mais de 18 mil.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, tais pontos surgem como excelente alternativa para a colocação dos 12 mil títulos, lançados nacionalmente todos os anos. Pela estatística levantada, em 2017, os livros que prevaleceram na lista de vendas são os de gênero autoajuda, reflexões sobre a depressão, a ansiedade, entre outros males dos corpos espiritual e físico, depoimentos, na sequência, os religiosos editados por padres católicos e por pastores evangélicos, voyeurismo mesclado com erotismo e sadomasoquismo. Entretanto, ainda há procura pelos livros de ficção, relacionando os impactos emocional e físico de jovens adolescentes com doenças degenerativas, além das tradicionais histórias clássicas juvenis de jornada poética e filosófica. Existem escritores que utilizam o sistema de cooperativa que os investidores recebem o livro de acordo com a cota de participação, entre outras formas bem mais modernas, práticas e amoldadas à atual situação econômica. Mas há editoras que possuem o maior know-how na área de distribuição na internet e nas redes sociais. Além disso, adotam outros sistemas como a mala direta e a venda através de dispositivos móveis, a exemplo do smartphone e do tablet, sem esquecer das parcerias.

Nas bancas ainda se usa, de edição limitada, livretos com adaptações de clássicos da literatura para o cinema, de biografia de cantores e gêneros musicais, como compositores da música popular brasileira, o jazz, as divas do cinema, de pensadores, de economistas, entre outros. Quanto aos livros, permanecem no máximo 15 dias nas bancas e, devido ao seu médio custo, e as tiragens limitadas, suas vendas diminuíram. Devido ao crescimento dos alfarrábios (sebos) e suas vendas on line, que pulverizam pelo país todo, acabam atingindo o leitor, que de outra forma não teria acesso aos livros. Alternativa em desenvolvimento é a venda de livros em catálogos de produtos de beleza, de porta em porta. Este canal de comércio tem um sistema de revendedores autônomos, sem despesas fiscais, trabalhistas e sindicais, que utilizam como material promocional o catálogo impresso. Mas, se o canal de venda em porta em porta e a internet vão bem, os livreiros têm muitas reclamações a fazer. Alem de enfrentarem a competição com dispositivos móveis, clipes no YouTube, lojas de departamento em hipermercados, conveniência nos postos de combustíveis, lamentam a concorrência desleal que é feita pelas escolas. Se toda a comercialização dos livros didáticos fosse feita exclusivamente por livrarias, acreditam eles, o setor teria aumentado o seu potencial de mercado em mais de 50 por cento. Além desse problema, os livreiros estão enfrentando prazos cada vez mais curtos de pagamento. Isso porque, com os atuais índices de inflação, é muito difícil projetar um preço para o livro.

Já o distribuidor reclama para o enorme feixe de atividades que deve cumprir com a margem de lucro pelo editor (já a do livreiro, dependendo do volume de compra gira em torno de 30 a 40 por cento). Com tal margem o distribuidor arca com o desconto para o livreiro, as despesas com seus vendedores que percorrem de norte a sul o país, eventualmente algum material promocional, e mais as despesas de embalagem, de cobrança ou transporte. Mas apesar disso, a situação só vai melhorar mesmo para escritores, livreiros, editoras e distribuidoras quando a população for alfabetizada, tendo como mola propulsora uma política que favoreça a geração de empregos junto ao aumento de salário, automaticamente elevando o poder aquisitivo, a autoestima, a educação e a cultura do cidadão brasileiro.

 

 

*Rubens Shirassu Júnior, escritor e pedagogo de Presidente Prudente, São Paulo. Autor, entre outros, de Religar às Origens (ensaios e artigos, 2011) e Sombras na Teia (contos, 2017)

 

 

 

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