Diego Ariça Ceccato • Articulistas

28 de Maio de 2019

Afinal, o que é ensino Híbrido?

 Muito tem se falado sobre o ensino híbrido, especialmente as instituições de ensino particulares. Se por uma lado é bom que esse assunto venha à baila, pois é reflexo da necessidade de mudanças na estrutura escolar, por outro muitas vezes o termo vem carregado de equívocos em sua aplicação e principalmente em sua concepção. Explico.

Primeiro vamos falar da concepção. Nesse sentido, o ensino híbrido aparece como uma alternativa a modelos rígidos e tradicionais de ensino. Surge no sentido de atender à novas demandas dos estudantes que cada vez mais tem dificuldades em aprender com os modelos tradicionais. Como sempre, quando falamos em educação há a necessidade de se fazer alguns parênteses referentes a resistência à mudança e não seria diferente ao falar desse assunto. Quando dizemos que os estudantes atualmente têm dificuldades em aprender nos modelos tradicionais de ensino, muitos professores que se querem “heróis da resistência” aparecem com o bom e velho argumento de que sempre aprendemos assim e que o problema está no estudante e não no método. Bom, não sou de aliviar para nenhum dos lados, claro que o estudante também tem sua responsabilidade, mas não podemos fechar os olhos para o fato de que em uma sociedade tão dinâmica e com tantas atrações que desviam nossa atenção a todo momento, continuar com aulas expositivas lineares, sem mudança de cenários, de recursos e de atividades, é um chamariz para que o estudante fique mais preocupado em para quem será o seu próximo like que em prestar atenção do conteúdo. Culpa do estudante? Sim, com certeza, mas também culpa do método. Nesse sentido o ensino híbrido vem para propor modelos que sejam mais eficientes no processo de aprendizagem dos estudantes, que valorize as mais diferentes dimensões da aprendizagem, como as emocionais, atitudinais e afetivas e não somente as cognitivas como prioriza o modelo atual. E para que isso ocorra, temos uma ferramenta fantástica para nos ajudar nesse processo, a internet. O ensino híbrido então, além de misturar diferentes metodologias, cenários e dimensões de aprendizagem, mistura também e principalmente o modelo presencial com o modelo à distância. O aluno não aprende agora somente enquanto está em sala de aula, mas também em casa, no trabalho, na hora do almoço, a caminho da faculdade, acessando materiais que são selecionados e disponibilizados pelo professor. O ensino híbrido não é uma tara, um fim em si mesmo, mas um caminho para se alcançar a melhoria dos processos de aprendizagem.

Então se fosse preciso resumir em uma expressão a concepção do ensino híbrido, diria que ele é a “personalização do ensino”. Explico novamente. Imagine uma aula expositiva tradicional. Mesmo que o professor busque agregar algumas atividades diferentes entre suas exposições, o estudante é obrigado a entender aquele conteúdo no momento em que o professor está o expondo. É bem provável que a exposição esteja muito básica para alguns e muito avançada para outros. O professor no entanto continua em seu ritmo, pois é impossível dar uma aula diferente para cada estudante. Com modelos híbridos no entanto, o professor pode disponibilizar sua aula expositiva online e os estudantes irão assisti-la cada um no seu tempo. Poderão ver, rever, pausar, voltar, avançar, etc. Ou seja, cada um verá a aula em seu tempo, conforme as suas possibilidades. Dessa forma o ensino se dá de forma mais personalizada. E em sala de aula? No espaço da sala de aula o professor desenvolverá estratégias que também podem levar à personalização, com atividades diferentes, mais avançadas para aqueles que têm mais facilidade, mais básicas para aqueles com mais dificuldade. Também é possível que os estudantes que não viram a aula em casa, o façam em laboratórios de informática, ou mesmo utilizando seus smartphones em diferentes espaços do ambiente escolar e não necessariamente na sala de aula. Precisamos romper com a ideia de que a aprendizagem se limita a sala de aula. Em relação às aulas expositivas, os professores podem continuar a fazê-las, desde que com objetivos específicos e claros a serem atingidos com aquela exposição, mas que ela não seja a regra utilizada aula após aula

Disse no início do texto que muitas vezes a concepção de ensino híbrido está equivocada. Isso porque muitas instituições concebem esse modelo única e exclusivamente por uma questão mercadológica, pensando no aumento de lucratividade que esse modelo pode oferecer. Não que isso seja um problema, não sou desses que sou contra leis de mercado na educação. As instituições têm o direito e dever de buscar melhorar seus rendimentos e o ensino híbrido pode ser uma forma de fazer com que isso aconteça. Mas isso deveria ser uma consequência natural de um processo no qual teríamos estudantes mais satisfeitos e aprendendo mais e consequentemente haveria mais procura por cursos nesse modelo. No entanto a concepção para utilização do modelo deve ser sempre a personalização do ensino e a melhoria no processo de aprendizagem.

Quanto a sua aplicação, já vimos que híbrido significa um “mix” de modelos, espaços, técnicas e abordagens. Significa entender que cada aluno aprende de uma forma e em uma velocidade, por isso precisamos misturar atividades que atendam aos mais diversos estudantes. Também algumas instituições entendem como híbrido somente a mistura entre ensino presencial e a distância e por vezes acabam utilizando esses dois modelos sem interação entre eles e da mesma forma tradicional de sempre.

Modalidade presencial e a distância não podem ser vistas como coisas separadas mas sim integradas. Se por uma lado temos uma escola tradicional que não atende mais aos estudantes e que gera frustrações nos professores, por outro temos a modalidade virtual que ainda não conseguiu atingir um status de seriedade e acaba oscilando entre alternativa e o descrédito.

A proposta de ensino híbrido ataca justamente essa lacuna entre os dois formatos de educação.

 

Diego Ariça Ceccato - "educador e professor universitário"

e-mail, diegoceccato@gmail.com

 

 

 

 

Willy Macedo
Interplan