Diego Ariça Ceccato • Articulistas

06 de Julho de 2019

DIPLOMAS NÃO VALEM QUASE NADA

Pode parecer estranho ou quase absurdo um professor universitário escrever um texto com o título “diplomas não valem quase nada”. Bom, se de fato eu estivesse afirmando que eles não valem nada, realmente seria algo fora de propósito, mas percebam que tem “quase” ali no meio e que fará toda a diferença naquilo que quero expor.

Como já escrevi algumas vezes em outros textos eu sou formado em química. Antes disso, no entanto, antes de fazer a faculdade, claramente eu cursei o ensino médio. Junto com ensino médio, cursei também o ensino técnico. Sou de Limeira, região de Campinas. Pois bem, em Limeira há um colégio técnico da Unicamp, chamado Cotil - Colégio Técnico de Limeira. Como o nome da Unicamp é muito forte no Brasil inteiro especialmente na região de Campinas, esse era e é até hoje um colégio muito renomado da cidade. Era necessário prestar um certo vestibular para entrar, que chamamos de “vestibulinho”. Eu me preparei para o processo seletivo e consegui ingressar no colégio, escolhendo o curso de técnico em edificações. Aqui abro um parêntese nessa história toda. Veja que loucura, com quinze anos alguém precisa escolher com o que irá trabalhar para o resto de sua vida. Claro, esse é um caso particular, poucas pessoas fazem essa escola aos 15, mas costumam fazer no vestibular, que é logo ali aos 18. Penso que se trata de um sistema cruel, para o qual não tenho nenhuma proposta de solução, mas ainda sim preciso dizer, toda a pressão de se escolher aquilo em que irá trabalhar antes mesmo de entrar na vida adulta, não é das tarefas mais fáceis. Pois bem, voltemos à história. O Cotil para quem não sabe, é um colégio técnico, mas inserido em um campus universitário. Então se você for no Cotil você vai achar que está dentro de uma universidade. O campus é muito amplo, com várias áreas de convivência, espaços de integração, era uma mini Unicamp vamos dizer assim. E as regras também eram parecidas com as regras de uma universidade, ou seja, podíamos entrar e sair das aulas, não éramos obrigados a ficar na classe o período todo, podíamos “matar” aula e ficar no pátio, ou ir para quadra, enfim tínhamos a liberdade de um aluno de universidade. Era um colégio em período integral, pois fazíamos as disciplinas do ensino médio e do técnico. Foi uma experiência muito boa. No entanto, meu aproveitamento no curso foi muito aquém daquilo que poderia ser. Apesar de eu

nunca ter sido um aluno indisciplinado em sala de aula eu vivi muito intensamente as relações com os meus colegas e acabei por não vivenciar aulas teóricas, práticas, os estudos de caso, as visitas técnicas e todo o conhecimento e infraestrutura que os professores e instituições tinham a me oferecer. Estudava o mínimo para conseguir passar pelas disciplinas, sem me preocupar em aprender. Foi uma experiência muito rica em termos de relações pessoais e vivência em um ambiente novo, mas em termos de aproveitamento acadêmico, não soube usufruir de forma responsável da liberdade que esse modelo tinha a oferecer, mas claro que a época eu não tinha essa maturidade, então foi tudo muito ótimo até eu me formar. Como o curso era na área de construção civil, para conseguirmos a autorização do conselho da área para atuar profissionalmente precisávamos fazer um estágio. Quando comecei a procurar por estágio já bateu aquela insegurança, pois sabia que embora eu estivesse estudado em um colégio extremamente gabaritado e com professores extremamente capazes eu não aproveitei nada disso, e agora, como seria no mercado de trabalho? Mas enfim, fui entregar alguns currículos torcendo para não ser chamado por nenhum lugar, afinal, sabia que não estava preparado, sabia que não levei o colégio a sério. No entanto, colégio da Unicamp, área de construção civil em alta….no dia seguinte da entrega de currículos fui chamado para uma entrevista.

A entrevista foi aquele bate papo rápido e o engenheiro que estava me entrevistando disse que minha formação era sólida, (mal sabia ele...), e pediu se eu não poderia começar naquele momento mesmo. Eu engoli seco e falei que podia. Era um escritório simples de engenharia e o engenheiro disse que iria sair por algumas horas e me deu uma planta baixa de uma casa e pediu para eu desenhar uma fachada daquela casa usando um programa chamado Autocad. A hora que ele falou Autocad minha barriga já gelou. Autocad é um software de desenho arquitetônico. Me lembrei que eu estava em todas as aulas desse software, mas nunca aprendi nada, sentava em dupla, deixava o outro companheiro desenhar tudo, nem me interessava em aprender. Fiz uma fachada digna de uma criança de terceira série. No retorno, o engenheiro pediu para ver o trabalho que eu havia feito. Vi no rosto dele a cara de decepção. Ele até que foi educado, mas disse que eu não precisaria voltar no dia seguinte.

Eu estudei em um dos melhores colégios da minha região, tinha um diploma de peso para apresentar, não obstante, o fato de eu não ter vivenciado adequadamente o meu curso fez com que eu não conseguisse depois exercer aquela profissão. Eu canso de ver isso na minha carreira agora enquanto docente. Estudantes que só pensam no diploma, que acham que o diploma irá lhe conseguir bons empregos. Estudantes que não se dedicam às aulas, que saem com um diploma de química de uma das melhores universidades particulares do país e não conseguem emprego, ou quando conseguem, não ficam nele por muito tempo. Eu vi isso acontecer também na minha graduação. Colegas de turma que não levavam a faculdade a sério, hoje ou foram fazer outra faculdade ou estão trabalhando em outras áreas, no comércio, em escritórios.

O tempo em que ficamos em um colégio precisamos vivenciar as aulas teóricas, as aulas práticas, tirar dúvidas, porque só o diploma sem conhecimento não vale nada. Ele pode até te abrir portas mas se você não tiver conhecimento ele servirá apenas de enfeite, com uma bela moldura na parede da sala para exibir aos outros ou guardado em alguma gaveta, se perdendo no tempo.

 

Diego Ceccato, educador e Professor Universitário.

E-mail: diegoceccato@gmail.com

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