Diego Ariça Ceccato • Articulistas

25 de Julho de 2019

O desaparecimento da noção de nuance em nossa sociedade. Mais educação será que resolve?

A definição de nuance segundo o dicionário do google é: “diferença sutil entre coisas, mais ou menos similares”. Pois bem, há tempos que a sociedade brasileira vem perdendo a capacidade de diferenciar particularidades em diversos assuntos, em perceber graduações, em perceber que entre um extremo e outro há uma imensa possibilidade de posições. Mas no Brasil nada mais disso existe, ou você está em uma ponta ou em outra. Não sei se esse é um fenômeno de abrangência mundial, tenho pouca vivência exterior e pouco tempo para acompanhar o noticiário externo, mas certamente trata-se de um fenômeno nacional, em todo nosso território, norte sul, leste e oeste é quase impossível defender ou criticar uma posição de um extremo e não ser imediatamente acusado de estar no extremo oposto, como se, novamente insisto, não existisse uma infinidade de possibilidades entre uma ponta e outra. Mas assim estamos. Basta você fazer uma pequena crítica ao governo Bolsonaro, logo é tachado de petista. Ou o contrário, apontar erros dos governos petistas, pronto, já te colocam como um bolsonarista de extrema direita. E não para por aí. Ou você é defensor ferrenho da lava jato ou então é defensor de bandidos, como se a operação lava jato não pudesse cometer erros. Ou é a favor de descer o cacete em bandidos ou novamente é defensor de bandidos, como se as pessoas que erram, que cometem crimes, não tivessem direito de se defender e de ter um tratamento justo do estado brasileiro. Aliás, nesse ponto perdemos a noção de nuance há muito tempo. Me lembro quando as falcatruas dos governos petistas apareceram, roubando bilhões do povo brasileiro, os defensores militantes do partido queriam colocar no mesmo balaio alguém que roubou milhões do estado e alguém que roubou uma bala no mercado. Segundo os petistas ambos estavam equiparados e o ladrão de balas não tinha moral para condenar o político petista que havia roubado milhões. Como se não houvesse uma graduação nas coisas, como se não houvesse uma escala, como se não houvesse lei para punir de maneira distintas esses crimes. Na esfera criminal, como disse, nós brasileiros realmente perdemos totalmente a noção de nuance. Como esquecer as feministas que querem colocar no mesmo patamar um estuprador e um homem que roubou um beijo a força na balada. Para elas, tudo estupro. As duas coisas são condenáveis, mas claro que não são igualmente condenáveis. Há uma medida nas coisas. Roubar um beijo na balada é coisa de homem

nojento que não teve nenhum tipo de educação em casa e que deve ser punido se houver lei para tal, mas estupro é um outro patamar. Assim como o ladrão de balas e o ladrão de bancos. Perdemos a noção de nuance. Ou você defende todo e qualquer tipo de desmatamento ou você é da turma dos “verdinhos” como se não fosse possível chegar a um meio termo, como se não houvesse exagero dos dois lados. Sair desmatando sem critérios além de destruir nosso meio ambiente com consequências difíceis de prever, também atrapalha os negócios no exterior uma vez que vários países exigem certificações ambientais para comprar nossos produtos. Do outro lado, colocar o meio ambiente como um algo quase que divino que não possa ser tocado, que não possa ser explorado, igualmente inviabiliza negócios no exterior e também o progresso interno. Ai de quem defender uma posição intermediária. Dependendo do lado que estiver pendendo ou será “verdinho” ou será “ruralista”. Perdemos a noção de nuance.

Tudo isso que foi descrito é o fruto de uma sociedade que está extremamente polarizada, que não enxerga outro caminho que não os polos. Como educador, não sei se a educação resolveria essa situação. Temos sempre na ponta da língua o discurso fácil de que a educação é a solução para todos os problemas de uma sociedade, mas vejo muita gente com grau alto de instrução que está cego em uma das pontas do debate, incapaz de enxergar e aprender qualquer coisa com alguém que está do outro lado. Não que mais educação não poderia ajudar, nunca diria isso, mas não caio no conto da panaceia da educação, de que ela resolverá todos nossos problemas.

Nesse Brasil que perdeu a noção de nuance, esse Brasil que cansa, que é insalubre, perdemos até mesmo a capacidade de identificar a miséria, de olhar para aquelas pessoas que todos os dias recolhem lixo para se alimentar, para aquelas pessoas que estão sempre na incerteza da próxima refeição. Ou você exibe seu corpo esquelético raquítico já quase padecendo e perdendo a luta contra a fome extrema ou você está bem alimentado, mesmo que esse alimento provenha do lixo. Perdemos a noção de nuance...

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