Diego Ariça Ceccato • Articulistas

10 de Setembro de 2019

O exercício da empatia deve estar presente também no ambiente escolar.

A nova base curricular nacional comum, a famosa BNCC, traz a empatia como uma das competências a serem desenvolvidas no ambiente escolar. Trata-se da competência 09 mais especificamente. Empatia como todos nós sabemos é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de entender ou até mesmo sentir o que o outro está sentindo, suas angústias e suas dores.

A discussão sobre o tema empatia não é nova, mas é especialmente relevante nos dias de hoje e por isso mesmo a BNCC acerta em cheio quando decidiu trazer essa competência como um objetivo a ser alcançado. Digo que é especialmente relevante nos dias de hoje pois vivemos tempos de julgamentos fáceis onde muitas vezes não nos colocamos por um segundo no lugar do outro para tentar entender seus erros. Em tempos de redes sociais esse tipo de comportamento se acentua. É inegável os avanços trazidos pelas redes sociais, mas também não podemos fechar os olhos para os problemas que trazem consigo. A falsa sensação de anonimato que o ambiente virtual causa nós nos faz trazer à tona a besta que há em cada um de nós. Comentários, opiniões e julgamentos que jamais faríamos em uma roda de amigos ou um almoço em família, acabamos fazendo muitas vezes online, certos de que nenhum conhecido terá acesso ao conteúdo exposto. O problema é que com o passar do tempo, certas opiniões foram se naturalizando e migraram das relações virtuais para as presenciais e aquilo que tempos atrás era inimaginável de ser comentado em encontros agora são ditas abertamente.

Havíamos superado a ideia de que podíamos fazer todo o tipo de piadas com mulheres, gays, pobres, pretos e outros grupos marginalizados da sociedade. Não obstante, a falta de empatia dos tempos atuais, a falta de capacidade de sentir a dor e humilhação pelas quais esses grupos há séculos passam todos os dias reacendem em nós um preconceito que estava lá incubado em algum lugar do nosso subconsciente. É verdade que o movimento do politicamente correto por muito tempo tentou impor uma censura velada a qualquer opinião que criticasse alguns desses grupos citados. Eu mesmo já escrevi um texto denunciando essa censura, intitulado Politicamente correto - A censura de nosso tempo. ” O problema é que agora, o jogo virou de tal forma que sob o argumento de não ceder ao politicamente correto, as pessoas destilam seu preconceito arraigado da forma mais odiosa possível. E mais, aquilo que estava restrito ao mundo virtual, passa também a ser comum nas relações físicas.

Diante desse cenário, nunca se fez tão importante discutir formas de se trabalhar empatia com nossos estudantes. A tarefa não é fácil, afinal, como ensinar empatia? Não tenho resposta para essa pergunta, mas talvez precisemos começar pelo exemplo. Talvez nós professores precisamos começar a ser mais empáticos com aquele estudante que trabalha exaustivamente durante o dia e frequenta a universidade a noite, com o estudante que luta todos os dias contra a depressão, que enfrentam problemas familiares graves ou simplesmente aqueles que possuem uma dificuldade maior de aprendizagem. Quando digo que devemos ser mais empáticos, não quero dizer que devemos passar a mão na cabeça desses estudantes e não lhes cobrar o que é cobrado ao restante da turma. Muitas vezes a única coisa que muitos desses estudantes querem é ser ouvido, ou um prazo maior para realizar alguma atividade. O problema é que muitas das vezes nós professores somos os primeiros a julgar esse estudante e falar ou ao menos pensar a famosa frase “cada um com seus problemas”. Canso de ouvir professores dizerem que é tudo um “mimimi”. Eis aí a maior expressão da empatia, não reconhecer o sofrimento do outro e acusá-lo de frescura.

Desenvolver empatia em nossos estudantes nesse mundo que anda tão virulento não é uma tarefa fácil e definitivamente não há um caminho único e certo para se alcançar esse objetivo, mas talvez o primeiro seja nós praticarmos o ato de sermos empáticos e agirmos pelo exemplo.

 

Diego Ceccato - professor universitário especialista em metodologias ativas.

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Willy Macedo
Interplan