Diego Ariça Ceccato • Articulistas

01 de Outubro de 2019

As metodologias ativas, a ação e a reflexão sobre a ação

Já escrevi aqui neste espaço por algumas vezes que uma das principais características das metodologias ativas é o processo com foco no estudante. É a inversão de papéis. Ao passo em que em um modelo passivo, o professor fala por mais de 70% do tempo da aula e o estudante escuta, em um modelo ativo o estudante fica mais da metade do tempo da aula trabalhando, desenvolvendo projetos, resolvendo problemas. O professor continua lá, mas como facilitador, como mentor. O professor deixa de ser palestrante e passa a ser um mediador, um facilitador. A adoção das metodologias ativas passa por uma mudança de paradigma, a mudança da palavra ensino para aprendizagem. Quantas vezes ouvimos professores dizer “Eu ensinei esse assunto, mas os alunos não aprenderam”. Oras, isso não existe! Não há ensino sem aprendizagem! São processos que andam lado a lado. Há uma analogia perfeita (que infelizmente não é minha) para ilustrar o quão sem sentido é dizer que houve ensino sem aprendizagem, é como dizer que você vendeu um carro, mas que ninguém o comprou.

Contudo os defensores das metodologias ativas precisam tomar certos cuidados para que esse movimento não caia em desgraça ao longo do tempo. É certo que há muitas resistências a esse movimento, e muitos professores se negam a tentar mudar sua prática pedagógica. Bom, a primeira coisa que acredito que precisamos fazer, antes de criar qualquer argumento em defesa das metodologias ativas, é acolher o professor que ainda não entendeu ou que ainda não aceitou essa nova forma de ver o processo de ensino e aprendizagem. Não adianta nos colocarmos como seres superiores que já enxergaram a verdade e colocar do outro lado esse professor como um adversário a ser superado. Já estamos em um país demasiadamente polarizado e essa polarização definitivamente não nos leva a um bom lugar. Então primeiro de tudo devemos tentar sensibilizar os professores que ainda não compraram a ideia das metodologias e criar argumentos para essas críticas que aparecem. Algumas dessas críticas são injustificadas e outras, no entanto justificadas. Comecemos pelas injustificadas.

É fala comum de professores que não querem a mudança dizer algo do tipo “no passado todos aprendemos assim, da forma tradicional e aqui estamos bem formados”. Bom, acho que um bom argumento nesse caso é dizer que sim, é verdade que todos nós sobrevivemos e aprendemos em um modelo tradicional. Mas é também verdade que a sociedade mudou e que a demanda de conhecimento e o tipo de habilidades e competências necessários para o século 21 não são mais os mesmos do século anterior. Eu costumo dizer em relação a isso que era comum fazer viagens muito longas de fusca por exemplo. É possível ainda hoje fazer uma viagem de dois mil quilômetros de Fusca? Sim! É perfeitamente possível. No entanto há outros modelos de carros que oferecem uma viagem mais segura, mais rápida e mais confortável, além de outros meios de transporte como o avião. Procuro mostrar que o que serviu no passado não necessariamente é a melhor opção para o presente.

Outro argumento, também injustificado, é o de que as metodologias ativas não proporcionam ganho de aprendizagem aos estudantes. Já há na literatura estudos que indicam ganhos cognitivos significativos em grupos que trabalharam determinado tema com metodologias ativas quando comparado com grupos que trabalharam o mesmo tema de forma tradicional. É preciso que se reúna esses estudos (talvez um tema para o um próximo artigo) para que ele sirva de embasamento para refutar essa tese. Além do ganho cognitivo, as metodologias ativas também trabalham habilidades e competências sócio afetivas e psicomotoras, coisa que quase não ocorre no modelo tradicional. Acredito que essas sejam as críticas injustificadas. Vamos agora a algumas que de algum ponto de vista são justificadas e é com essas que precisamos tomar mais cuidado.

Muitos professores criticam essa as metodologias ativas dizem que elas infantilizam o processo de ensino e aprendizagem. De fato, algumas técnicas quando não utilizadas dentro do contexto correto podem parecer infantis, excessivamente lúdicas para certa faixa etária. O professor ao escolher determinada metodologia, abordagem ou técnica deve ter claro qual é a intencionalidade de sua escolha, quais objetivos de aprendizagem que deseja alcançar e se a atividade escolhida é adequada para a idade dos estudantes. Nesse ponto então devemos ouvir as críticas e refletir sobre elas. Outra crítica que aparece muitas vezes é a de que falta sistematização no uso das metodologias ativas e que a aula fica muita vaga, muito solta. De fato, as metodologias ativas preveem um grau bem maior de liberdade dos estudantes na escolha das atividades, na construção da sua rota de aprendizagem. No entanto o professor deve ter de maneira muito clara e muito planejada aquilo que deseja alcançar e mesmo deixando o estudante mais livre para criar, ele professor, precisa ter claro em sua cabeça o começo, o meio e o final de sua aula. É fato então que precisamos ficar mais atentos sobre essa aparente (ou muitas vezes real) falta de planejamento.

Acredito que um dos aspectos mais importante dentro das metodologias ativas é a cultura maker, o aprender fazendo. E esse fazer também é bastante criticado. Muitos indagam (com razão muitas vezes): O estudante produz um material, mas será que ele aprendeu no processo de produção daquele material? Ou será que ele só executou uma tarefa e não refletiu sobre o que estava fazendo? Essa é uma crítica muito pertinente especialmente quando falamos em aprendizagem baseada em projetos. O estudante faz, mas não sabe nem o por que faz e nem como faz. Mais uma vez a questão da sistematização e do planejamento é importante. É preciso planejar ao longo do processo momentos em que os estudantes precisam refletir, planejar e explicar aquilo que estão fazendo, caso contrário fica somente o fazer pelo fazer. É preciso que fique claro que essas falhas, como o de não aprender o que está fazendo, não são falhas da técnica e sim da execução dela. A crítica que muitos fazem de que as metodologias ativas são tecnicistas, não reflexiva, é uma crítica improcedente pelo próprio histórico da técnica. John Dewey, um dos pioneiros em falar de aprendizagem ativa com problemas significativos aos estudantes já dizia que nós não aprendemos pela prática, mas sim pela reflexão do que fazemos na prática.

Se quisermos então de fato construir um movimento sólido e fazer com que o uso das metodologias ativas seja uma realidade nas escolas brasileiras, precisamos antes de mais nada ouvirmos as críticas e fazer as correções e contraposições pertinentes sem nos colocarmos como salvadores da educação, mas sim como um movimento que pretende melhorá-la.

 

Diego Ceccato - professor universitário especialista em metodologias ativas.

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Willy Macedo
Interplan