Diego Ariça Ceccato • Articulistas

19 de Novembro de 2019

Educação em tempo de desinformação

Dia desses ouvi um certo grupo de alunos conversando sobre um acontecimento que supostamente havia ocorrido na universidade. Ouvi atentamente as opiniões inflamadas dos estudantes, que inclusive me mostraram as fotos e os prints das redes sociais comprovando o fato do qual todos estavam indignados. Mais tarde em casa fui verificar o que estava acontecendo e percebi que aquilo que se estava espalhando nas redes sociais era uma visão totalmente distorcidas dos fatos, daquilo que realmente havia acontecido. Esse tipo de situação não é algo isolado, pelo contrário, acontece todos os dias sobre os mais diversos assuntos e não somente com estudantes, mas com diferentes grupos. Esse é o fenômeno das fake news, tão discutidas nos dias atuais.

A literatura sobre fake news ainda está sendo construída e muitos sustentam a tese de que fake news é um nome novo para a mentira. Discordo! Creio que há características nesse fenômeno que precisam ser exploradas e que se diferem bastante da mentira. Primeiramente é preciso entender que o fenômeno das fake news surgiu na internet, especialmente nas redes sociais e isso é muito significativo. Ao passo que uma mentira contada a alguém atingia um grupo limitado de pessoas, uma fake news pode ter escala global. Aqueles que defendem o uso de fake news (sim, isso existe!) usam argumento de que todos tem direito a ter opiniões diferentes e esse é outro ponto importante de ser combatido. Hoje há uma confusão geral entre o que é fato e o que é opinião sobre o fato. As pessoas têm sim direito a ter suas próprias opiniões, mas não tem direito de criarem seus próprios fatos. É comum hoje que as pessoas criem seus próprios fatos para que consigam emplacar suas visões de mundo. O que acontece na realidade, no mundo verdadeiro, não condiz com a opinião que eu tenho? Simples, eu crio meus próprios fatos de maneira que para aquele fato que inventei minha opinião faça todo sentido. Aí também temos o que chamo de fake opinion, ou seja, uma opinião sobre um fato que nem existe. E ai de você se pedir provas para a pessoa que está dando uma opinião sobre um fato que nem existe. Ela vai dizer que você é que é um alienado, que só acredita naquilo que está na mídia e nos livros e que a verdade é muito mais profunda e está guardada em um lugar que só ele conhece.

Outro ponto que diferencia o fenômeno das fake news da mentira é a sua forma orquestrada, planejada e impessoal. Pessoas mentem, é verdade, mas mentem em seus círculos, ou mesmo quando são pessoas públicas e mentem para uma audiência considerável, quando pegas na mentira, essa tem cara, nome e endereço. A pessoa pode ser cobrada por aquilo que disse. Já nas fake news é diferente, as mentiras contadas nessa categoria são impessoais, não possuem nome. São grupos que trabalham de forma orquestrada e se escondem atrás de perfis falsos na internet, que elaboram as mentiras de acordo com o grupo que querem atingir. E assim esse fenômeno vai emplacando suas supostas verdades e cada vez mais pessoas acreditam que a Terra seja plana, que vacinas são uma enganação, que o ensino superior é um prostíbulo, que as crianças aprendem a fazer sexo nas escolas e por aí vai. Sem contar as fake news no mundo da política. Essa categoria mereceria um artigo só para ela, ou melhor, um livro.

Bom, dentro de todo esse panorama, como combater a esse fenômeno? A resposta fácil aqui seria dizer que a educação é o único caminho. No entanto eu mesmo como educador me questiono sobre isso. Comecei o artigo contando uma história sobre fake news e estudantes. No entanto, não é incomum, na verdade é muito comum ver pessoas com bom grau de instrução escolar, inclusive professores, propagando as mais absurdas fake news, passando para frente informações bastante contestáveis sem nenhum tipo de checagem, de confirmação. Isso acontece inclusive entre mestres e doutores, que não são melhores que nenhum outro professor, mas que pela formação científica que tiveram deveriam ter a obrigação de respeitar o método científico e repassar informações que fossem minimamente verificadas. Mas as fake news são muito sedutoras, as pessoas se identificam com aquela mentira, pois novamente, vão de encontro muitas vezes a pensamentos internalizados e que nunca haviam ganhado vazão e então quando veem aquela mentira vindo de outro lugar, se sentem fortalecidos e a repassam para frente. Eu, sinceramente tenho vergonha quando vejo um colega de trabalho repassando uma fake news.

Mas então a pergunta retorna, o que fazer? Educação resolve? Sim, a boa educação resolve. A educação questionadora, emancipadora e que não aceita qualquer informação, é um valioso instrumento no combate às fake news. As pessoas devem ser contestadas sobre as mentiras que contam e que repassam. Quando alguém repassa uma informação mentirosa ou imprecisa, é dever de um professor questionar aquela pessoa sobre qual é a fonte daquela informação, quais sãos os dados que sustentam aquela hipótese. É dever dos professores estimular em seus estudantes o olhar crítico sobre as notícias. Um grande erro do ensino das ciências exatas é achar que criticidade é algo que cabe somente a ensino das ciências humanas e sociais aplicadas. Não, um cidadão alienado, sem criticidade, seja ele de qualquer área, terá menos chance de se destacar de forma positiva na sua prática profissional e além do mais deixará nossa sociedade pior. Por isso o papel da educação é importante nesse contexto, mas é preciso combater também aos educadores que contribuírem para esse quadro de deflagração de informação. Como disse anteriormente, as pessoas têm direito a suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos.

Diego Ceccato

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Willy Macedo
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