Minhas Corridas • Sinomar

24 de Maio de 2015

Desafio do fim do mundo foi só alegria

O desafio precisa ser do tamanho do seu sonho.

Nas horas vagas sou um atleta amador, que corre pelo prazer de praticar a atividade física que gosto, e me faz bem. Isso começou há 13 anos, com a primeira corrida da Sociedade de Medicina no Parque do Povo. Desde então, participei de todas provas realizadas na cidade, no começo sem pretensão alguma, mas depois você começa a acompanhar amigos em corridas de 10 km e 21 km pelo Brasil e pega gosto pela coisa. Vira uma paixão. Depois de participar da Meia Maratona do Deserto do Atacama, em dezembro de 2014 me tornei fã dessas corridas que não fazem parte das provas tradicionais de rua, buscando percursos mais desafiadores e paisagens encantadoras, estímulo aos sentidos.

Já me chamaram de “maluco”. Mas, percebi que tenho resistência para longas distâncias, talvez herança dos ancestrais africanos. A saúde me permite e treino adequadamente, seguindo orientações de um profissional Educador Físico e fisioterapeutas. Obedeço o meu corpo. Só faço o que o meu limite físico permite. Se seu gosto e posso, vou fazer.

Faltava completar a primeira maratona, a mítica prova de 42 km. Escolhi a Montain Do Fim do Mundo, em Ushuaia, na Terra do Fogo, Argentina, conhecido como um dos últimos lugares selvagens do mundo.

Alguns chegaram a dizer que seria uma temeridade estrear numa maratona justamente em prova de montanha, em tese mais difícil do que as de asfalto. Mas achei que era para lá que eu devia ir, porque o desafio me faria treinar mais intensamente.

As condições climáticas preocupavam. O frio era agravado pela chuva fina que caia em alguns pontos do percurso. Mas a segunda pele, com tecido térmico, por baixo da roupa de corrida tornou a corrida suportável. Foi fundamental.

A largada aconteceu às 10 da manhã do domingo 17 de maio, com temperatura por volta de 0° grau. Atletas das distâncias 21km e 42km saíram juntos e fomos em direção ao Parque Nacional da Terra do Fogo, terreno variado que costeia o Canal de Beagle e as baias Encenada e Lapataia, passando por estradas de chão e trilhas que serpenteiam entre bosques e montanhas.

Foi a corrida mais bonita que já vi. Os participantes eram brindados a todo tempo por

uma profusão de cores e paisagens lindíssimas coloridas pelo outono austral, com picos nevados e lagos encantadores. Ora eram bosques, ora a imensidão dos vales, ora a desolação das turfeiras - as mais impressionantes do continente sul-americano. Lagoas plácidas. Castoreiras. Rios e corredeiras de água das geleiras. Baías históricas que encantaram Charles Darwin.

A câmera GO Pro que eu trazia amarrada ao peito fazia fotos automaticamente de todo percurso, enquanto a bateria suportou, registrando cerca de 300 fotos.

Em vários lugares cruzei com alguns animais da fauna local, guanacos, raposas vermelhas e coelhos.

A adrenalina subiu mesmo foi na travessia do lugar chamado Senda Pampa Alta. Ali sim parecia que estávamos no “Fim do Mundo”: uma subida de seis longos quilômetros de uma trilha difícil pela mata fria, escura e fechada, pisando numa lama grudenta profunda, que molhava os tênis e congelava os pés. Em alguns pontos havia uma fina camada de gelo, onde muitos corredores escorregavam e caiam. Quando a subida terminou, pensei que o pior havia passado. Lego engano. O grau de dificuldade aumentou na descida, parte mais complicada da prova, onde mais senti, por exigir muito do anterior de coxa e joelhos. Foram 6 quilômetros, guiando-se por estacas amarelas que delimitavam o caminho, driblando barro, pedras soltas e raízes expostas. Era um silêncio absoluto.

Em certo momento me senti perdido no meio da mata, temendo ter tomado uma trilha errada. Gritei e logo alguém da organização respondeu “por aqui” e reencontrei a sinalização. Perdi muito tempo nesse trecho, até encontrar uma estradinha de chão batido, no sopé da montanha, e imprimir um ritmo mais consistente na minha corrida.

Eu já estava correndo há quase cinco horas. Nem via tempo passar. Parece que você entra em transe meditativo, num vácuo. Nem me lembro no que estava pensando. Sei que apenas corri.

De repente ouvi gritarem o meu nome e o número da corrida que eu trazia no peito. Era o locutor da prova, que parabenizava cada participante pela chegada. Momento emocionante, hora de gritar, pular de alegria e celebrar.

Assim que cruzei o portal de chegada fui acolhido pelo pessoal da organização e embrulhado com toalhas quentinhas. Me serviram chocolate quente, croissant, frutas e isotônicos.

Cansou? Sim, exauriu as forças. Mas achei que seria pior. Algo como terminar sem conseguir andar ou com muitas dores. Terminei bem, sem um arranhão, ou qualquer lesão, em estado de graça. Dores que surgiram em alguns momentos logo desapareceram. Nem uma unha se perdeu. Joelhos e tornozelos intactos.

No máximo senti alguma dor muscular tardia, no dia seguinte, na hora de descer escadas. Isso durou um dia, e depois sumiu.

Mas, o que valeu foi o desafio e a diversão. Foram 42 km conquistados com dedicação e alegria.

Superar encostas, lama, gelo e rajadas dos westerlies (ventos que giram de oeste em torno da Antártica e ajudam a reger o clima no Atlântico Sul) foi um prêmio a tantos anos correndo, e meses de treinamento específico com planilha de seis dias por semana de corridas e preparação técnica orientada pelo professor Eliseu Sena.

A corrida foi marcada pela beleza da natureza e pela paixão que move a todos nós.

A alegria de concluir a primeira maratona ficou ainda maior na festa de premiação, na noite de domingo. A medalha que recebi por terminar a prova já foi algo extraordinário para mim, mas vibrei muito ao ver subirem ao pódium dois prudentinos que também

abandonaram suas rotinas para se aventurar na maratona do gelo. No rol dos melhores maratonistas brasileiros, bem treinados, o médico André Pirajá, ficou em terceiro, e o personal trainer Diogo Porto em segundo lugar, em suas categorias.

Resta elogiar a organização extremamente profissional e competente da prova realizada pela Sports Do, uma empresa de Florianópolis, comandada por Euclides Neto, o “Kiko”, figura famosa no meio das corridas. O homem corre o tempo todo, cuidando de cada detalhe da prova, muito preocupado com cada um dos atletas participantes.

Outro ponto positivo foi o grande envolvimento da cidade de Ushuaia, incluindo a Prefeitura local e, principalmente a Secretaria de Turismo. Os brasileiros foram acolhidos com carinho e hospitalidade, e se sentiram em casa.

Correr a Maratona de Ushuaia foi uma experiência muito gratificante e feliz.

 

*O jornalista Sinomar Calmona participou da Maratona do Fim do Mundo, realizada em Ushuaia, dia 17/05/15, e completou os 42 km em 5 horas. As fotos foram feitas com uma câmera Go Pro amarrada no peito do corredor, que registrava imagens automaticamente, a cada 10 minutos.

Cultura Inglesa
Willy Macedo